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Comentário sobre o Capítulo 3 do Livro "Gêneros Literários"

de Angélica Soares (Trabalho de Teoria da Linguagem de: Celso Alvares)

 

O texto, a teoria

 

Traços e formas líricas

 

Algumas das principais características do texto lírico explicam-se pela sua própria gênese. Enquanto as epopéias preocupavam-se em cantar grandes feitos heróicos centradas na unidade da pólis (cidade), surgia uma poesia, ao acompanhamento de flautas ou liras, voltada a expressar sentimentos mais individualizados, mesmo ao abordar temas comunitários. Emoção, musicalidade, eliminação do distanciamento entre o eu poético e o objeto, repetição de estrofes, de ritmos, de versos (refrão), de palavras, de sílabas, de fonemas (rimados ou não), a evidência de sons e do sentido das palavras; tudo isso é característica marcante do texto lírico que, embora tenha perdido o acompanhamento musical com o decorrer do tempo, reteve sua musicalidade intrínseca.

O soneto número IV de Vinícius: é um bom exemplo desse lirismo:

            Apavorado acordo, em treva. O luar
            É como o espectro do meu sonho em mim
            E sem destino, e louco, sou o mar
            Patético, sonâmbulo e sem fim.

            Desço na noite, envolto em sono; e os braços
            Como ímãs, atraio o firmamento
            Enquanto os bruxos, velhos e devassos
            Assoviam de mim na voz do vento.

            Sou o mar! sou o mar! meu corpo informe
            Sem dimensão e sem razão me leva
            Para o silêncio onde o Silêncio dorme

            Enorme. E como o mar dentro da treva
            Num constante arremesso largo e aflito
            Eu me espedaço em vão contra o infinito.

                       (Vinicius de Moraes)

 Quando o Eu poético diz "(...) sou o mar" e características humanas (patetice e sonambulismo) são misturados com o caráter “(...) sem fim” do mar, o sujeito, torna-se o objeto, e a paisagem, uma profusão de sentimentos.

Diversos outros aspectos líricos podem ser realçados nesse soneto: o apelo emocional do poema, o jogo entre o silêncio palpável e o Silêncio (em maiúsculas) inefável, o predomínio de orações coordenadas, a preocupação com a musicalidade dos versos (decassílabos acentuados ora na quarta, oitava e décima sílabas, ora na sexta e décima), o esquema das rimas, as aliterações nasais, sibilantes, fricativas e vibrantes, o emprego de ´enjambements´; apenas para mencionar alguns recursos utilizados pelo poeta para expressar um estado da alma.

Eu só discordo da autora (dando meu pescoço à guilhotina) quando ela interpreta os versos "(...) Num constante arremesso largo e aflito/ Eu me espedaço em vão contra o Infinito.” como uma referência ao suicídio. Ora, o mar é algo perene e o constante arremesso do mar contra um rochedo (a meu ver, a imagem subliminar do Infinito) é algo que não tem fim. O próprio verso diz que o espedaçar-se é em vão, em nenhum momento a paisagem lembra o caráter terminal e definitivo de um suicídio. Acredito que a idéia é expressar a luta contínua de um Eu poético, disforme, ante o Infinito de seu próprio vazio (o Silêncio, indevassável) ou ante sua própria treva anímica.

 

O lírico, o social, o humano

 

Os principais traços da poesia lírica, a saber: a formação do eu lírico pela seleção e combinação das palavras e construção das frases; a exclusividade na configuração de cada texto; e a diferenciação entre o poeta e o eu lírico; ajudam-nos a compreender o lirismo moderno que desenvolve um conteúdo explicitamente social.

Muitas vezes, ocorre a substituição da primeira pela terceira pessoa e a caracterização do sujeito ocorre unicamente pela dicção própria de cada poema e pela sua estrutura singular. Na verdade, o lirismo se manifesta como integração entre a emoção e o desejo de interpretar o mundo.

Isso se evidencia no texto de João Cabral de Melo Neto. A descrição de um rio fluindo ”(...) como um cão humilde e espesso” e de homens que são “(...) como cães sem plumas” mostra o caráter intimista do texto. A denúncia social é gritante em “(...) homens plantados na lama...”, ou seja, a desumanização do ser humano; ou em "(...) roem tão fundo até o que o não têm..." indicando as marcas irreversíveis da miséria e uma abrangência que extrapola o âmbito material e atinge até ideais, sonhos, aspirações ou venturas que nunca virão.

É interessante a colocação da autora que mesmo em poemas cuja ênfase é a individualidade, a motivação pode ser social, uma vez que a linguagem é sempre transmissora de conceitos e, por isso, promove a união sujeito-sociedade.

Ao lado de poemas líricos voltados para temas socioeconômicos e sociais, ainda existem, no lirismo moderno, os metapoemas, que buscam a dessacralização da linguagem e do fazer poético , e a vertente erótica, com uma maioria de expoentes feminina.

 

Uma noção imprescindível

 

Nesse subtópico, a autoria salienta algo brilhantemente esclarecido nas aulas ministradas durante o curso: a contaminação entre os estilos literários, como um texto épico ou dramático pode apresentar características líricas, e vice-versa. Isso explica a expressão "romance lírico”.

Em seguida, ela passa descrever alguns tipos de poemas líricos:

·        Elegia: poemas cujo tema é, normalmente, o lamento e o pranto pela morte de um amigo; muitas vezes transmissores de conceitos e máximas morais, e regras para suportar os infortúnios.

·        Haicai: versos japoneses sintéticos, de 17 sílabas (5 + 7 + 5), inspirado nas estações do ano. A alternância dos versos liga-se à diferenciação cíclica dos fenômenos naturais e a repetição do verso pentassílabo pode ser considerada um reflexo da regularidade da natureza. Ainda, a construção em 3 versos alude às fases da existência humana: ascensão – apogeu – decadência.

·        Ode: originalmente, poema destinado ao canto, construído de forma a proporcionar determinados efeitos musicais e emocionais. Classifica-se em pindáricas (exaltação a homens e acontecimentos ilustres), sacras (exaltação a religião), filosóficas (assuntos meditativos e filosóficos), sáficas (assuntos morais), anacreônticas (amorosas ou pastoris) e báquicas (celebração dos prazeres da mesa). A ode moderna libertou-se das regras clássicas, embora ainda mantenha o estilo solene e grave, próximo da poesia épica.

·        Soneto: poema de catorze versos, disposto, na maioria das vezes, em dois quartetos e dois tercetos, muito utilizado por poetas neoclássicos, parnasianos e simbolistas.

 

Bibliografia:

SOARES, A. M. S. . Gêneros Literários. 1. ed. São Paulo: Ática, 2003. v. 85. 85 p.
Palavras-chave: Poesia; Narrativa; Teatro Brasileiro.
Grande área: Lingüística, Letras e Artes / Área: Letras / Subárea: Teoria Literária.
Grande área: Lingüística, Letras e Artes / Área: Letras / Subárea: Literatura Brasileira.
Setores de atividade: Educação superior.
Referências adicionais: Brasil/Português; Meio de divulgação: Impresso.
1. ed. 1989, 2. ed. 1993, 3. ed. 1993, 4. ed. 1997, 5. ed. 1999, 6. ed. 2000 (6a impressão, 2003)..

 

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