Esqueletos no Armário*
(Celso Alvares, Sorocaba, SP – Brasil) - 02/05/2006

Estava lá, no meio do meu caminho, anuviando minha visão com seus discretos tamanho, forma e cor.

Misturava-se ao piso. Era quase imperceptível. Talvez tenha passado por ele inúmeras vezes sem percebê-lo, mas não naquela vez.

A incerteza de sua identidade fez-me curvar meus quase dois metros praticamente rente ao chão, para perceber seus contornos milimétricos.

O gesto foi automático; o medo do desconhecido torna-nos ágeis, flexíveis, velozes; acelera, desinibe, fortalece. Identifiquei-o. Tranqüilizei-me? Não, aterrorizo-me e projeto meu tronco no sentido oposto, num istmo de segundo, num reflexo de preservação. Grito! só não sei dizer se audivelmente ou não.

De repente, o desconhecido dá lugar ao inesperado, e esse novo medo é tão ou senão mais poderoso que o primeiro. Tinha de tomar uma providência e teria de ser certeira. O fracasso custar-me-ia caro...

A única solução era a definitiva: matar o ser pulante, condenado ao extermínio simplesmente por ser pulante!

A ação teria de ser precisa, não poderia permitir nenhuma possibilidade de reação. Falhar dispararia o salto e esse, por sua vez, fragilizaria Deus ante seus próprios fantasmas.

Zap! Arremesso a sandália com tamanha força e precisão, e o impacto cataclísmico não lhe permite nenhum reflexo, nenhuma dor.

Ledo engano! O pobre inseto é atingido, contudo não fatalmente. Pula, mas mutilado, alcança não mais que poucos milímetros.

Então, o medo transforma-se em piedade, mas apenas por um quase-momento. O golpe de misericórdia (ou seria de vergonha?) é desferido.

Alguns movimentos depois e pronto! nem sequer um vestígio.
 

Paro e por parcos segundos filosofo quantos gafanhotos já sacrifiquei em minha vida por receio de encarar meus próprios medos; quantos esqueletos no armário...

Mas a verdade jaz ali, indefinida, rente ao chão, e curvo-me para discernir sua identidade. Em poucos momentos, range a porta do armário!

* Todos os direitos reservados. Liberado para cópia e publicação sem autorização prévia, desde que: o conteúdo original seja preservado na íntegra (inclusive com os erros de ortografia e gramática), e com o mesmo estilo de identificação do autor acima, ou seja (Celso Alvares, Sorocaba, SP – Brasil), abaixo do título. Topo

 


 

Tenha Vó!*
(Celso Alvares, Sorocaba, SP – Brasil) - 27/05/2006

A minha vizinha Rosa é uma moça decidida. Na faculdade, a dois meses da formatura, sem falar nada para ninguém, largou tudo e foi prestar vestibular para odontologia. Ela mora com Dona Ana, uma velhinha simpática do tipo que todo mundo gosta de chamar de vó.

Contudo, Dona Ana tem uma peculiaridade só sua. Cada vez que fala da neta dentista, mostra os dentes e diz “Rosa, a minha neta dentista” enquanto bate o polegar na dentadura. O ritual se repete todas as vezes que a profissão de Rosa é orgulhosamente lembrada.

Dona Ana sente muito orgulho de tudo o que Rosa faz. A única coisa que não entende é por que ela desistiu de ser ginecologista a dois meses da formatura!

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Bate-Papo - Ver sessão
(Celso Alvares, Sorocaba, SP – Brasil)

Assunto da Sessão: (Sessão não agendada)
Início: 20/10/2006 17:25:44
Fim: 20/10/2006 17:46:47

 


Participantes:
Celso (' Celso Alvares')

 


(17:25:44) Celso Entra na sala...
(17:26:27) Celso fala para EU: Oi Celso, é bom falar contigo!! Fazia tempo que não conversávamos! :)
(17:27:34) EU fala para Celso: Verdade, Celso, vc também nunca dá bola para mim...Pows meu, custava pelo menos uma cervejinha... Larga de ser Mané!!! :0s
(17:28:52) Celso fala para EU: Você tem que entender meu lado... afinal de contas, alguém tem que bancar sua boemia!
(17:31:24) EU fala para Celso: Boemia??? não! Bohemia, Antártica, Skol, Budweiser e ainda tem uma nova que nem sei o nome.. Vai me dizer que vc não gosta da sensação de relaxamento no dia seguinte!!!
(17:35:01) Celso fala para EU: Tudo bem... isso não é mal. Mas, faz um favor para mim: escolhe a companhia antes do primeiro copo... Tem dia que nem para halloween dá para aproveitar! Eu levo cada susto... :ox
(17:37:31) EU fala para Celso: Mas tu é mané mermo... Antes do primeiro copo quem tá com a bola é vc meu... e vc não pega nem resfriado. Agente faz o que pode quando a bola vem torta.... Mané!!!  :-s
(17:39:08) Celso fala para EU: Mané não... Olha que eu corto seus os subsídios...
(17:45:23) EU fala para Celso: Pode cortar, tem problema não, a gente se encontra na próxima nova ruga que perceber... Pode até espernear... Mas eu sempre estarei no fim daquele reflexo. E da próxima, Mané, eu posso até pensar em em não voltar de táxi e... x-(
(17:46:47) Celso Sai da sala...
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A atividade 2 do módulo 4 não deve ser feita
(Celso Alvares, Sorocaba, SP – Brasil)  - 28/11/2006

É inadmissível que estudantes universitários, futuros educadores, tenham que se prestar a este tipo de situação constrangedora: provarem a capacidade de redigirem um texto argumentativo.

Além do constrangimento inicial imposto aos referidos estudantes no momento do incurso na instituição, a saber, o vestibular, ainda têm de comprovarem o tempo todo o que aprendem como se não tivessem nenhum comprometimento com o seu próprio aprendizado e agissem sempre como verdadeiros doidivanas.

É como se o objetivo da educação universitária se resumisse a simplesmente angariar informações e ordená-las de modo inteligível quando solicitadas pelo respectivos mestres. E quanto ao aprendizado social? E quanto ao progresso feito no inter-relacionamento humano? E as vitórias conquistadas na arte de amar?

Mesmo no século XXI, ainda há indivíduos com uma capacidade cognitiva imensurável, contudo incapazes de estenderem a mão e fazerem um carinho em alguém a quem se sentem atraídos, muitas vezes, inaptos para lhes dirigirem um mero olhar mais profundo.

E se o maior conhecimento adquirido por esse indivíduo no segundo período do curso de Letras (motivado, por exemplo, por uma obra literária com que teve contato) foi a capacidade de se dar? E se, por causa disso, desviou a maior parte das suas energias, outrora direcionadas simplesmente para a cognição, e agora aprendeu a desvendar a entrelinhas de um gesto, de um sorriso enigmático, ou mesmo de uma atitude agressiva, aparentemente, sem razão de ser?

E se o seu desempenho escolar não é mais o mesmo, pois o seu poder de concentração está dividido e, ao invés de buscar simplesmente a satisfação do êxito nos estudos, aventura-se pelos incontáveis meandros da alcova e deslumbra-se com cada novo incurso nos “mares nunca dantes navegados”? Qual teste ou prova a universidade fará para aferir o seu desempenho nessa nova arte adquirida em decorrência da didática a que fora submetido?

Pelos motivos apresentados acima, recuso-me determinantemente a fazer a atividade 2 do módulo 4. Só a farei no dia em que forem aferidos a minha capacidade de sorrir e de sonhar , o poder de me desprender das coisas meramente materiais para valorizar o que realmente deixamos de importante quando partimos desta existência, e que biblioteca nenhuma no mundo pereniza: o sorriso sincero, o carinho oportuno, o gozo compartilhado, a lágrima compreendida, o olhar de cumplicidade, o senso de compadecimento, a plenitude de estar vivo!Topo

 

 

Lucas Skywalker e a Bíblia
(Celso Alvares, Sorocaba, SP – Brasil) - 14/11/2006 - Sala de Discussao do Curso de EAD

A Bíblia é um livro interessante, talvez por isso, depois de milhares de anos de sua escrita, ainda seja o maior best-seller de todos os tempos.

Sem querer discutir sobre o grau de confiabilidade que daremos a ela, muitas vezes, ela ainda me surpreende e se torna espantosamente moderna e adaptável às situações completamente inimagináveis na época em que foi escrita.

Lendo aqui os comentários sobre o amigo Lucas Skywalker (aliás, muitos deles injustos, pois eu que sento ao seu lado e converso com ele todas as noites sei que, apesar de tímido,  pessoalmente o Lucas tem muito o que nos acrescentar) e a conclusão que muitos chegaram de que ele é um homem cibernético ou virtual,  lembrei-me de um personagem bíblico tão importante que foi o escritor da maior parte do que é conhecido hoje como novo testamento.

Esse homem tinha uma cultura tremenda, outrora tinha sido fariseu (a casta sacerdotal e elite cultural judaica) e não só tinha os dons do espírito santo como tinha o poder de transmiti-los para quem julgasse merecedor, com a simples imposição das suas mãos.

Aliás, na prática, a religião que os cristãos praticam hoje provém mais da sua visão dos ensinamentos de Cristo do que, propriamente dito, dos próprios evangelhos, visto que o gênero literário destes (para alegrar o LF) é narrativa enquanto que as cartas ou epístolas de Paulo (xii, acabei com o suspense) são totalmente dissertativas e doutrinais. 

Seu conhecimento filosófico era impar. Certa vez, na Grécia, discursou no mesmo palco utilizado pelos grandes filósofos imortais gregos e usou de uma artimanha que, além de granjear a atenção de todos os presentes ainda conseguiu converter muitos ao cristianismo.

Para os curiosos, é o relato de Atos 17:16-34 (supostamente escrito por Lucas, um dos quatro evangelistas).

Os gregos eram politeístas e não tinham o conceito de um Deus criador, pai, como os cristãos têm. O que Paulo pregava era totalmente inaceitável e impalpável para eles, principalmente para um filósofo.  Alíás, o relato diz que alguns filósofos epicureus e estóicos já o estavam chamando de paroleiro (fanfarrão, mentiroso) e foram esses que o levaram ao "Areópago" (um tribunal, também utilizado como assembléia dos intelectuais, dos magistrados)  para que Paulo tivesse a oportunidade de expor a sua nova doutrina. 

Em vez de começar a falar sobre a ressurreição de Cristo, como fizera com êxito tantas outras vezes, a tantas outras platéias, Paulo usou uma técnica de retórica avançada e estabeleceu um ponto em comum com a platéia que abriu a mente de todos para o que ele ia dizer e, provavelmente, impediu que ele fosse agraciado com uma tremenda vaia.

Ele simplesmente disse:

- "Homens de Atenas, em tudo vejo que sois excepcionalmente religiosos; porque, passando eu e observando os objetos de adoração, encontrei um altar em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO. Pois, a esse que honrais sem o conhecer é de quem  eu falo... "

 Notem que abordagem brilhante! Em vez de anunciar que estava apresentando um novo Deus, em vez de falar de um assunto polêmico como a ressurreição dos mortos, ele disse que falaria sobre um deus que já era venerado pelos presentes, ou seja, já pertencia ao panteão grego, mas de quem, contudo, nunca ouviram falar.

Como você descreveria a capacidade desse homem em lidar com o público?

Pois, pasmem,  Paulo também tinha suas dificuldades em se relacionar, pois em uma de suas cartas, 2 Coríntios 10:10, ele reclama do que falavam sobre ele:

- "As cartas dele são intensas e fortes, mas a sua presença corporal é fraca e a sua palavra desprezível." 

Ou seja, apesar de grande retórico, apesar de um baita nível cultural, Paulo não era eloqüente (não tinha o dom da palavra) e se ele participasse desta sala, os comentários que fariam a respeito dele seriam muito parecidos aos feitos a respeito do nosso apostólico amigo Lucas Skywalker.

Assim, mesmo vivendo há cerca de dois mil anos, podemos dizer que Paulo também era um ser virtual.Topo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Morte de Saddam*
(Celso Alvares, Sorocaba, SP – Brasil) - 30/12/2006
 

Um ditador é enforcado devido aos crimes cometidos contra a humanidade.

A dívida foi paga?

Os EUA cometem os mesmos tipos de crimes, simultaneamente, em diversos lugares do globo, nunca escala e forma de que não temos nem a capacidade de conceber, inclusive o calhorda do Saddam não poderia fazê-lo, nem nos seus melhores dias!

Contudo, os Estados Unidos da América são uma democracia. Haverá cordas suficientes para todos os eleitores de Bush e dos últimos presidentes americanos para se pagar os crimes cometidos contra a humanidade nas últimas décadas?

A ditadura é muito superior à "democra_dura", pelo menos nela, podemos enforcar apenas um e brindarmos o ano novo de alma lavada.

 Democra_dura!!!

Contudo, a "chave" dos nossos problemas poderá ser certas conversas recheadas à cachaça, nos porões do Planalto, entre Luis e Hugo e, pode ser que, mais cedo ou mais tarde, a preservação da Amazônia torne-se o "novo trabalho de Hércules" dos nossos benevolentes protetores mundiais.

Nesse dia, só há uma coisa para torcer: que as cordas em Brasília não tenham sido adquiridas por algum ilibado processo padrão licitatório.

Que Deus tenha piedade de nossas almas!

* Todos os direitos reservados. Liberado para cópia e publicação sem autorização prévia, desde que: o conteúdo original seja preservado na íntegra (inclusive com os erros de ortografia e gramática), e com o mesmo estilo de identificação do autor acima, ou seja (Celso Alvares, Sorocaba, SP – Brasil), abaixo do título. Topo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O Passo*
(Celso Alvares, Sorocaba, SP – Brasil) - 13/04/2007

Ontem, caminhando pelo centro de Sorocaba, em mais um belíssimo crepúsculo apagado pelos prédios, pela fumaça dos carros, pela feiúra urbana, pelas pesadas carrancas das pessoas no final de um exaustivo dia de trabalho; de repente, no intervalo de uma passada, percebi um bêbado maltrapilho deitado ao meu lado, tentando em vão assumir uma posição mais digna.

Evidentemente, ninguém lhe estendia a mão, pois as regras subjacentes nas cidades não permitem esse tipo de complacência.

Por poucos batimentos cardíacos, coloquei-me em seu lugar e comecei a imaginar, em um nível neurônico, o que o levou a impor a si mesmo tal condição humilhante.

A nossa sociedade tem tantas contradições que a distância entre a calçada e a presidência da república pode ter sido, no passado, uma porta fechada, um ônibus perdido, um olhar mal compreendido, uma atitude impensada, um gesto juvenil, uma palavra não dita.

Como se mede o fracasso de uma pessoa? Qual o verdadeiro indicador de sucesso? O que difere um alcoólatra nos recônditos de um palácio daquele que se expõe ao opróbrio público?

As inúmeras possibilidades e motivos que levaram tal ser àquele momento bombardeavam meu pensamento sistêmico.

De repente, percebi que ninguém se importava! Apenas eu, no meio da multidão, o havia notado e lhe dedicado, quiçá, um dos sentimentos mais distintivos do homem: a piedade!

Tal pensamento embriagou-me e roubou-me o reflexo de lhe estender a mão. Senti-me satisfeito, superior a todos os demais naquela calçada. Eu era o único compadecido de sua dor, que se importava com ele, com a sua desgraça, e isso indicava a qualidade do material com qual meu caráter fora cunhado.

Completei a passada narcotizado pelas minhas próprias qualidades morais.

Antes que conseguisse levantar o pé novamente, porém, talvez inspirado pelo fétido odor que emanava daquele homem, imaginei o que faria se, repentinamente, ele vomitasse em mim.

A força do quadro mental disparou os mais animalescos instintos de asco e autopreservação e percebi que a minha reação seria explosiva, quem sabe a ponto de agredi-lo fisicamente.

O Olimpo em que se encontrava meu ego desmantelou-se, e senti o peso da minha casca. As nuanças da minha personalidade saltaram-me aos olhos e estamparam em minha fronte a etiqueta: “ordinário”. Esse mal-estar fez com que eu percebesse a meninice da minha alma, a futilidade em que a minha auto-estima se baseia.

O pensamento seguinte foi um insight: a consciência da sua pequeneza moral é a maior grandeza que um homem pode ter...

Levantei o pé e retornei triunfante aos domínios de Zeus!

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Explica, mas não justifica!*
(Celso Alvares, Sorocaba, SP – Brasil)  - 18/05/07

Talvez a coisa mais medíocre que fazemos seja recorrer à justificativa quando ficamos expostos diante de uma falha que cometemos ou de algo que deixamos de fazer. A ferramenta está às mãos: “não fiz isso porque meu filho...”, “ah, eu estava...”, “fui surpreendido por...”, “o filho da sobrinha da avó da minha empregada...”

Talvez isso esteja no íntimo do ser humano, afinal de contas, segundo a Bíblia, quando só havia duas pessoas aqui, ao serem defrontados com o pecado, Adão disse que pecara devido à mulher que Deus havia lhe dado e Eva devido à serpente.

A “história” ou “alegoria” acima ilustra como essa prática está arraigada em nossa cultura.

Justificar é algo muito injusto com aqueles que nos ouvem. É como se disséssemos que os nossos problemas são mais importantes que os de todos os demais. Todas as pessoas têm dificuldades e, a maior parte do tempo, desconhecemos o nível de superação envolvido daqueles que estão desempenhando alguma tarefa ou contando conosco de alguma maneira. De repente, chega alguém,com uma autopiedade do tamanho de um jumbo, achando que é vítimas de todas as mazelas da humanidade e que, em virtude disso, está justificado a atrasar algo, a não cumprir com o prometido, a quebrar uma promessa, a atrasar um ônibus...

E o pior é que alguns acreditam piamente nessa linha de pensamento e se tornam as maiores vítimas de seu próprio modo de pensar.

Na maioria das vezes, é muito melhor um pedido sincero de desculpas do que uma lista de problemas que só tem significado para a própria pessoa.

Eu sei que este texto deixou a desejar, mas não pude dedicar a atenção que ele merecia porque a rebimboca da parafuseta...

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A Tocha do Tam*
(Celso Alvares, Sorocaba, SP – Brasil) - 20/07/2007

Acabei de ler o caderno da Folha sobre o acidente aéreo de São Paulo e fiquei enojado ao olhar para o espelho e ver que sou da mesma espécie daqueles "seres" que administram a nossa vida.

A manifestação de alegria dos dois assessores de Lula ao ouvirem a notícia sobre o defeito do equipamento (que a TAM já sabia que a aeronave apresentava problemas no reverso e que este estava lacrado e, portanto, não poderia ser utilizado pelo piloto para parar a aeronave numa situação de emergência -- e aqueles que têm boa memória lembram-se de que o Fokker 100 da TAM, em 1996, não conseguiu decolar devido a um defeito mecânico no mesmo reverso, que inversamente, daquela vez, abriu em um momento inoportuno) e a forma como reagiram diante dos repórteres ao tentarem explicar o acontecido, pedindo um “tempinho” para verem a imagem e articularem mais uma "mentira oficial", denotam a falta de caráter que permeia nossos administradores, quer no âmbito público, quer no privado.

Essas coisas tornam claro por que idealistas, como Fidel Castro e o próprio Lula, e tantos outros (de esquerda, de direita ou “ambidestros”), ao chegarem ao poder, imitam ou até superam o grau de perversidade daqueles contra os quais lutaram. O processo de chegar ao topo, de ser bem-sucedido, de conseguir o poder os endureceu e a ternura se perdeu.

Talvez a maior máxima dos revolucionários de esquerda, de Guevara, guarde em si uma confissão.

Esta não é uma crítica à esquerda, isso não acontece só no âmbito político, mas em todos os lugares em que "vencem os melhores".

Quando o nosso herói nacional, Airton Senna, jogou seu carro contra Alan Prost, para provocar um acidente "calculado", simplesmente para ser campeão mundial de uma competição “esportiva” e alimentar seu próprio orgulho e o nosso, como brasileiros, (comportamento que o próprio Prost e, posteriormente, Schumacher também fizeram)ficou patente que, para ser o melhor, para vencer neste “mundículo” ridículo, é preciso “vender a alma ao diabo” e deixar os escrúpulos “infantis” de lado.

É similar quando se tem de matar, pela primeira vez, frangos para um almoço em família: depois de um certo momento, com as roupas impregnadas de sangue, o nojo e receio iniciais desaparecem e aquilo que outrora parecia inconcebível torna-se usual.

Que escrúpulos podemos esperar de homens que para estarem nos lugares em que estão pisaram em incontáveis pessoas, mentiram (algo que, no Brasil, agora, todos admitem com naturalidade), trapacearam, arquitetaram complôs, seqüestraram ou mataram pessoas (inocentes ou não) - pensando estritamente naqueles que lutaram contra governos opressores - e que vivem em “fogo constante”, pois seus opositores usam dos mesmos recursos para derrubá-los; que escrúpulos podemos esperar de tais homens “vitoriosos” responsáveis pelos nossos destinos?

Para os magnatas das empresas aéreas, um avião cheio de sonhos, nada mais é que um negócio (assim como um caminhão de gado, para o dono de um grande frigorífico) e eles não levam as pessoas em consideração ao fazerem os seus “riscos calculados", pois um acidente como esse, no futuro, se perderá entre números, estatísticas e “desvios padrão”; e quando os administradores dos meios de comunicação, da mesma estirpe, voltarem as suas lentes a uma nova matéria mais lucrativa e se esquecerem da pequena Alanis e dos incontáveis órfãos e famílias vitimados pela tragédia, esse será apenas mais um incidente em nossa memória, até que o próximo revés ou reverso não abra e reabra a nossa ferida.

Quantos outros defeitos “aceitáveis” tinha a tal aeronave? Quantos têm naquelas que estão circulando sobre as nossas cabeças neste momento? Quantos têm em nossos medicamentos, nos alimentos industrializados que damos para as nossas crianças, nas usinas nucleares atuais e nas que estão por vir? O que os homens “bem-sucedidos” que dirigem nossas vidas farão para evitar as vindouras catástrofes cunhadas em nosso destino de gado?

E, a pergunta mais importante de todas, o que nós podemos fazer, como cidadãos, como pessoas "supostamente" de bem, para evitar que canalhas desse tipo sempre se safem e consigam se manter no poder, ou que sejam substituídos pelos seus pares?

Não sei! Assim como não sei como lutar contra este estado de coisas. Tenho medo de endurecer no caminho ou, pior, de permitir que estas mal traçadas linhas mascarem a minha covardia e latência diante dos escrotos que me governam e administram, e aplaquem a minha repugnância por tais seres repulsivos que nunca estiveram comprometidos com o sorriso da pequenina Alanis, mas simplesmente em tirarem “seus respectivos retos da reta” e continuarem “vitoriosos”.

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À Flor da Pele*
(Celso Alvares, Sorocaba, SP – Brasil) - 26/07/2007

Andava muito confuso... Não podia aceitar o modo como aquele desejo crescera ultimamente.

Quando era garoto, isso fora objeto de grande curiosidade, mas não teve coragem porque não teria como encarar os olhos de seu pai.

Tudo bem que os tempos mudaram... Agora, a sociedade lida melhor com aqueles que veiculam suas opções aos quatro ventos, mas, mesmo assim, ainda considerava aquilo uma agressão contra seu corpo e totalmente não condizente com a imagem de homem responsável que mantinha na cidade. Seu pai fizera um excelente trabalho em associar indelevelmente os termos penetração e violação em seu centro de moral.

Contudo, a aventura da transgressão lhe compelia... A mística de ultrapassar seus limites, de desfrutar da vida a plenitude, emprestava cores à questão que não desbotavam com facilidade.

A vida tem seu “time” e quando o desrespeitamos, perdemos oportunidades que jamais poderão ser recuperadas.

Depois de muito pensar, de debater-se nos lençóis, de refletir nos ensinamentos de seu pai, de tentar compreender seus próprios impulsos, desvendar os gritos da sua alma, a busca constante por uma identidade que insiste em desvanecer a cada momento de mediocridade, sucumbiu e decidiu consumar o fato.

Contudo, temia as conseqüências da sua decisão e o “como” tornou-se uma grande preocupação. Sua amada não podia desconfiar.

Às vezes, os resquícios de uma meninice podem culminar em conseqüências aterradoras. Teria de fazer do modo mais seguro possível. Apavorava-lhe a idéia de ser, de alguma forma, infectado ou, pior, que isso viesse a comprometer o relacionamento que tanto prezava.

A próxima questão a ser sanada era o “onde”: o local precisaria ser escolhido com inteligência, para não correr o risco de ser pego com calças curtas por alguém inconveniente. Optou por um lugar comum, despovoado de interesses, desses que facilmente passam despercebidos.

Agora, faltava decidir o “quem”. Não podia ser um amigo e não conhecia ninguém apropriado para tal. Logo percebeu que teria de recorrer a um profissional. Decidiu buscar o melhor que pudesse encontrar, alguém com grande habilidade, com toque suave, que soubesse tornar a experiência o mais indolor possível, mesmo que isso lhe custasse um bom dinheiro.

Na primeira tentativa, acovardou-se. Ao sentir o primeiro arfar quente de Alberto em suas costas desnudas, vestiu-se imediatamente e fugiu.

Caminhou muitas quadras pelas ruas, revoltado com sua própria covardia. Depois de algumas horas e de muitos drinks, voltou.

As formas extremamente musculosas de Alberto não contribuíam para que se sentisse confortável e nem deixavam transparecer se ele tinha a sensibilidade necessária. De repente, a questão “profundidade” irrompeu em sua mente, mas agora era tarde demais.

Não vou entrar em detalhes sobre os momentos seguintes para não deflorar em demasia sua privacidade. Contudo, alguém que observasse os seus muitos gemidos e a forma hábil e sensível com que Alberto usou seu potencial imenso para obter o final mais apoteótico possível, ficaria convencido de que as lágrimas que esboçava em seus olhos, ao final, significavam a satisfação de alguém que acabara de fazer um grande ato de amor.

Esqueceu-se de todas as convenções que carregara até o momento e saiu às ruas seminu, exibindo orgulhoso aos quatro ventos a imagem da amada tatuada, agora, para sempre em seu dorso!

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Brincando de Filosofar I*
(Celso Alvares, Sorocaba, SP – Brasil) - 31/07/2007

Era uma vez uma colônia de amebas, que nasceu da falta de higiene de alguém e se desenvolveu dentro de um copo, fechado em um armário de vidro, ao redor de outros copos e de uma garrafa de bebida barata e que, por essas coincidências que só as histórias que começam com “era uma vez ...” têm, criou consciência, tornou-se inteligente e transformou-se numa próspera comunidade microscópica.

Com o tempo, desenvolveram complicadíssimos equipamentos tecnológicos e estavam às voltas de desvendarem os mistérios do universo: os copos que circundavam o sistema "garrafal" em que viviam e de uma estrutura externa muito maior que só conseguiam estimar a existência baseado em complicadíssimos cálculos matemáticos. Inclusive, já tinham conquistado o espaço exterior, e enviado algumas expedições até a borda do copo, embora não tivessem conseguido chegar aos outros copos ainda, devido à tremenda distância entre eles.

Qual a probabilidade das amebas descobrirem as respostas às perguntas “quem somos”, “por que estamos aqui” “para onde vamos” e, talvez, a mais intrigante de todas, quem foi e de onde proveio a ameba original?

É interessante a coragem que alguns de nossos pesquisadores têm de, enquanto amebas em copo fétido, projetarem como surgiu o universo, como apareceu a vida na terra, e de dizerem com segurança coisas que ocorreram bilhões de anos atrás.

No universo, segundo esses próprios pesquisadores, tudo gira: desde partículas subatômicas, em torno do núcleo do átomo, até galáxias em torno do centro de seus aglomerados galácticos. Talvez isso indique que tudo faça parte de único sistema em que as forças reagem, convergem e se contrapõem causando os efeitos. Tentar explicar a origem do sistema com base em uma ínfima parte dele é o mesmo que acreditar que as amebas conseguiriam descobrir a identidade do sujeito desleixado responsável pela contaminação do copo, ou tentar explicar o funcionamento do mecanismo do Big Ben, baseado exclusivamente na extremidade de um de seus ponteiros.

É como naquele famoso conto hindu dos cegos que não conheciam elefante: cada um apalpou uma parte diferente do corpo do animal. Aquele que abraçou a pata estimou que ele era alto, roliço e esguio, como um coqueiro. O que apalpou a sua trompa, imaginou que ele fosse flexível e sinuoso como uma cobra. Ou seja, eles tinham em suas mãos partes da verdade, o elefante, mas o tanto que apalpavam não era suficiente para conceber o todo. No caso dos cegos, isso poderia ser facilmente resolvido: bastava conceder-lhes tempo para apalparem todo o elefante. Contudo, no nosso caso, estamos muito longe de alcançar o universo, quanto mais de apalpá-lo.

Portanto, é temerário acreditar que alguém, aqui na Terra, com proporções muito inferiores a da ameba da nossa ilustração em relação à percepção que temos do universo em nossa volta, tenha a capacidade de, somente com o microscópico pedaço do elefante que temos ao nosso alcance (alguns poucos ossos, pedras, alguns punhados de pó, algumas fotos espaciais e dados de nossos equipamentos tecnológicos) conjeturar como surgiu todo o universo e como surgiu a “ameba” original.

O que precisamos aceitar é que o estarmos aqui, o sermos o topo da cadeia alimentar dos seres deste planeta, não nos coloca como centro do universo. A ciência, por mais absurdo que isso pareça, continua geocentrista, pois acredita que pode descobrir como todo o universo surgiu baseado nas observações feitas da Terra, como se tudo o mais existisse em nossa função.

Talvez nunca saibamos o porquê estamos aqui. Eu, como leigo, só posso me fiar nos meus sentidos e o que eu vejo ao meu redor denota ordem, e toda ordem denota um organizador, contudo talvez Deus não tenha nada a ver com os paradigmas que criamos para ele.

Antigamente, quando não compreendíamos nada sobre o que ocorria em nossa volta, tínhamos medo e, para lidarmos com isso, criamos deuses: animistas, vingadores, protetores, guerreiros, à imagem dos homens, que precisavam ser adulados, adorados, chantageados, ludibriados, comprados para nos protegerem e não causarem as coisas atemorizantes que nos assustavam, ou para servirem aos nossos próprios objetivos.

No entanto, chegou um momento em que nos julgamos adultos suficientes para não temermos mais o “bicho-papão” e descartamos os nossos deuses mitológicos. Atribuímos ao caos a organização que moldou a nossa vida e que propiciou a nossa própria existência. Falamos de evolução em um ambiente em que as coisas se degeneram, envelhecem e morrem.

Evidentemente, é preciso ser tolo para tentar desmerecer os avanços científicos, mas para engolir o que a ciência prega, hoje, como a origem da vida e do universo tolice só não é suficiente!

Se eles conseguissem, a despeito de tanta sofisticação intelectual, em vez de massagearem seus egos numa masturbação mental sem fim, observarem a natureza com olhos pueris, com olhos leigos, talvez descobrissem que o rei está nu e que há ainda muito elefante para ser apalpado e, quiçá, essa humildade os colocassem mais próximos do grito “eureca!” que tanto buscam.

 
* Todos os direitos reservados. Liberado para cópia e publicação sem autorização prévia, desde que: o conteúdo original seja preservado na íntegra (inclusive com os erros de ortografia e gramática), e com o mesmo estilo de identificação do autor acima, ou seja (Celso Alvares, Sorocaba, SP – Brasil), abaixo do título. Topo
 

 

O Reverso do Óbvio*
(Celso Alvares, Sorocaba, SP – Brasil) - 04/08/2007

Como é bom não ser especialista para analisar as coisas, assim não ficamos perdidos no meio de tecnicidades e não temos receio de intuir o óbvio:

a) se o reverso não fosse necessário, é óbvio que não existiria. Como, há 10 anos, o Fokker 100 da TAM caiu porque o reverso abriu, evidentemente esse dispositivo inútil e assassino já teria sido retirado das aeronaves. É óbvio que o reverso é necessário, segundo o que me consta, para casos de emergência;

b) se o manual da Airbus permite que as empresas façam determinado número de vôos sem o reverso, é óbvio que foi escrito por um ou vários “manés” que consideraram que, estatisticamente, por um determinado tempo, seria seguro operar sem o reverso, afinal de contas, é só um dispositivo de segurança para ser utilizado em casos de emergência, e seria muito azar justo nesses dias acontecer uma situação de emergência. Um problema no seu airbag não impede que você continue dirigindo seu automóvel, agora, não vá me meter num acidente grave justo nesses dias, ok?

c) as estatísticas não mentem jamais. Aliás, já que estamos na época em que o genoma humano foi conquistado, quero propor um negócio genético: possuo um gene cuja a possibilidade de se manifestar é 1/1.000.000.000 de pessoas. Troco por qualquer gene em que a estatística seja 1/5 pessoas. Volto quanto você quiser. Detalhe: só aceito genes que não tenham se manifestado, no meu caso, olha só que legal, eu sou o 1 da estatística e apresento a doença. Essa sandice que acabo de escrever serve para ilustrar que estatísticas funcionam como parâmetros, mas não para pessoas, pois quando se é o 1 da estatística, não importa se o universo é de 10, 10.000 ou trilhão, o resultado é o mesmo. Assim, novamente, uma aeronave manifesta defeito num equipamento descartável, que tem a função desnecessária de reverter as turbinas e desacelerar o avião, e algum técnico superdotado que escreveu o manual achou que por alguns pousos e decolagens seria aceitável que essa aeronave operasse normalmente; a operadora, a TAM, levando os números em conta, achou que seria mais prejuízo parar e consertar o equipamento com defeito do que pagar indenizações caso um caso em um zilhão viesse a ocorrer. É óbvio que esse procedimento é adotado para todos os tipos de defeitos, exceto a falta de uma das asas;

d) O sistema de vôo é controlado por computadores, e o piloto fica a mercê de que esses compreendam as suas atitudes para inferirem se o avião está pousando ou arremetendo. São computadores avançadíssimos, no mínimo possuem inteligência artificial. Ou seja, decidiu-se que, nessas superaeronaves, não é necessário nenhum botãozinho para, num caso de emergência, o piloto acione manualmente um dispositivo, também desnecessário, chamado spoilers, que só tem a função de aumentar a aderência do avião à pista e de desacelerar o avião. O computador, coitado, se confundiu, afinal de contas, todo mundo erra. A presunção dos projetistas é imensa. Eu não lhes confiaria o transporte da sogra do cachorro do meu vizinho até o petshop!

Conclusão: é óbvio que voar é o meio de transporte mais inseguro que existe, porque além de se estar desafiando as leis da gravidade, ainda há a gravidade de desafiar as leis do bom senso e de descobrir que os colarinhos brancos por detrás dessa catástrofe, verdadeiros assassinos em massa, estão acima de nossas leis.

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