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Tem Certeza de Que Vivemos Numa Democracia?

(Celso Alvares [quem?] - 24/03/2006)

 

Antes de abordar esse assunto, acho importante realçar que não pertenço a nenhum partido político, não sou anarquista, socialista, comunista, ou outro ista qualquer, e o sistema de governo com qual mais me identifico é a democracia.

O que me levou a escrever estas palavras é a crença de que a mudança do Brasil reside nas mãos da classe média. Acredito que toda a generalização é burra e peço desculpas aos injustiçados, mas a classe A não sente nenhuma necessidade de mudança e a grande maioria dos nas classes C, D e E, infelizmente, não possui cultura suficiente para discernir o que está acontecendo na ponta de seu nariz.

Assim, está na hora dos na classe média pararem de se preocupar com o modelo do TV plasma que estão empenhados a adquirir a qualquer custo antes da copa e fazerem algo para mudar o destino de seus filhos.

Acredito que o esforço individual seria pequeno: bastaria conscientizar uma pessoa, e isso criaria um efeito em cadeia e atingiria a muitos.

Feitos esses esclarecimentos, volto à pergunta inicial:

Estamos numa democracia?

A democracia, por definição, tem que dar voz ao povo no jogo do poder. Isso ocorre na prática?

Parece que a palavra democracia tem um efeito narcotizante. As pessoas não se apercebem de que as nossas instituições, imprescindíveis para que o processo democrático se materialize, agem quase sempre mancomunadas.

Exagero ao dizer que as nossas instituições são fictícias? Quantos corruptos, de todos os escândalos que vieram à tona após a ditadura, foram presos ou cumpriram penas?

O vexame do escândalo do PT é o maior exemplo disso. Cadê o Ministério Público para processar os corruptos expostos pela mídia e pela CPI? Cadê a instituição partido político para pedir o impeachment do Lula? Podemos acreditar em partidos que deixam de cumprir a constituição por interesses políticos?

Como o impeachment de Lula colocaria em risco a eleição dos presidenciáveis da oposição, a esclarecida intelectualidade tucana e seus pares compactuaram com a casta governamental para porem panos quentes nas CPIs (também porque apontar sujeira com o dedo sujo não é uma boa idéia, que o diga Azeredo).

O Supremo Tribunal Federal, último paladino a quem a democracia pode recorrer, descobriu que é legítimo conceder habeas corpus para que os criminosos mintam diante do congresso do povo. Será que isso tem alguma conexão com o fato de as leis serem criadas por prospectivos beneficiados de tal concessão? (Estou pensando em requerer um desses antes de fazer a minha declaração do imposto de renda deste ano. :0) 

O caso do caseiro Francenildo é prova inconteste da imaterialidade das nossas instituições "democráticas":

Um membro do povo depõe na CPI e prova que um dos pilares da Instituição Governo, o Ministro Palocci, mentiu descaradamente ao depor no mesmo fórum.

A instituição Supremo Tribunal, atendendo à solicitação de um Membro de destaque da instituição Congresso, suspende o depoimento de imediato.

A instituição Caixa Econômica, soturnamente, viola o inviolável sigilo bancário de Francenildo e revela uma movimentação financeira que coloca a integridade do caseiro em questão.

A sua condição de bastardo vem à tona e seu pai ilegítimo é obrigado a expor sua condição para o Brasil, e talvez para seus familiares, no intuito de limpar a moral maculada de seu filho. Não adianta, o “será?” permanecerá indelevelmente tatuado em sua testa, para o resto da sua vida.  

E hoje, ao comparecer como depoente na instituição polícia federal para cumprir seu papel de cidadão, descobre que não é mais testemunha, e sim investigado.

Existem instituições no Brasil? Vivemos numa democracia?

Na verdade, quando voto, não tenho a sensação de estar participando do processo democrático e elegendo um representante. Sinto-me como dando uma carta branca para que o meu suposto representante atue em prol dos grupos que patrocinaram sua eleição e de outros interesses que nem sequer tenho capacidade de conceber.  Isso é a democracia em que temos orgulho de viver, principalmente quando comparamos nossa realidade com o mundo muçulmano ou com a China.

Bem, simplesmente criticar é muito fácil e não leva a nada. O objetivo desta mensagem é falar sobre uma idéia que Marx e todos os grandes pensadores do passado jamais poderiam conceber, não por limitação intelectual, mas por incapacidade logística.

Todos nós sabemos que Brasil é tecnologia de ponta quando se trata de processo eleitoral.

E se, a exemplo do novo cpf, todo o brasileiro tivesse um título de eleitor eletrônico? Ou melhor, e se o nosso cpf eletrônico dispensasse a necessidade de ter um título de eleitor? E se, desse modo, fosse possível controlar a quantidade de votos de cada parlamentar e estabelecer um patamar mínimo de eleitores que o congressista teria de manter para preservar seu mandato (sem comprometer o direito ao voto secreto garantido pela constituição [temos tecnologia para isso]).

É claro que essa idéia, no momento, é fantasiosa e que ela teria de ser discutida e elaborada por pessoas muito mais articuladas do que eu.

Mas eu sonho com um congresso cujos parlamentares teriam a obrigação de manter uma porcentagem dos votos que os elegeram. No momento em que o eleitor quisesse retirar o seu voto, ele poderia fazê-lo instantaneamente, pela internet ou em qualquer agência bancária, correios, lotecas, etc.

Um patamar para perda do mandado poderia ser a quantidade de votos do parlamentar menos votado, por exemplo. Um dashboard seria colocado no congresso com a cotação em tempo real de cada parlamentar, seu "banco de atual eleitores”, e a liquidez de cada político literalmente dependeria da avaliação de suas ações. O tamanho do banco de eleitores de cada um poderia servir de massa de manobra no jogo político.

Evidentemente, para que o sistema funcionasse, o voto teria de deixar de ser obrigatório, a nossa constituição sofreria uma mudança gigantesca e isso dependeria dos mesmos congressistas atuais ou seus futuros pares (imagine quantas Heloísas Helenas seriam necessárias para tal).

O ideal seria o parlamentarismo, uma vez que o governo estaria nas mãos de um primeiro ministro que, indiretamente, estaria sujeito às mesmas regras (teria de manter sua base parlamentar, e cada parlamentar, por sua vez, seu banco de eleitores). Para cargos executivos como presidente, primeiro-ministro, governador ou prefeito, esse sistema não seria viável, uma vez que medidas antipopulares são inevitáveis e ninguém conseguiria fazer um bom governo com uma faca no pescoço.

Mas, um parlamentar é diferente. Se alguém perdesse o mandado pela vontade popular, não colocaria a instituição congresso em risco. Assim, cada congressista teria de refletir as aspirações de seus eleitores e esses teriam a oportunidade de participarem ativamente no processo democrático.

Imagine se essa fosse a realidade atual. Os partidos, agora, não estariam simplesmente preocupados com os conluios eleitorais. Estariam tentando politizar seus eleitores, pois seus mandatos seriam condicionais. Seriam forçados a ter uma ideologia clara, inteligível e, o mais importante, a serem fiéis a ela. Teriam de manter o nosso voto todos os dias do mandato, e isso incluiria segundas, quintas e sextas-feiras. Quem sabe se com isso a cultura deixaria de ser mera propaganda eleitoral e passaria a ser uma pauta prioritária no congresso!

A imprensa teria de fazer a sua parte: abandonar a atual postura apocalíptica, libertar-se das pressões dos “poderosos” e informar de forma clara e oportuna o que acontece nos bastidores do poder.

Bem, eu não sou Thomas Morus, mas também tenho minha Utopia. Bem que esse lugar poderia chamar-se Brasil.

Espero que pessoas mais iluminadas e mais sábias do que eu adubem essa semente ou desenvolvam idéias melhores e AJAM!, façam algo para que os futuros brasileiros não sintam orgulho da sua brasilidade apenas em época de copa do mundo.

 

Celso Alvares

Cidadão Comum

 

 

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