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Toques de Gramática*
          "Ir à Argentina" e "Ir para a Argentina" significam a mesma coisa?
          Embora, na maioria das vezes, as preposições "a" e "para" tenham empregos semelhantes, com os verbos "ir" e "vir", porém, elas modificam o sentido do verbo.
          A preposição "a" indica transitoriedade de movimento. Assim, se você for à Argentina só para tirar uma foto do Maradona, diga:
           - "Vou à Argentina!"
          Por outro lado, a preposição "para" indica permanência ou destino. Então, se a sua intenção for consolar o Maradona até que ele se esqueça de que temos o melhor futebol do mundo, diga:
          -"Vou para a Argentina!"

          Por que a sigla CPFL é escrita com maiúsculas e a sigla Crea não?
          Embora a tendência seja utilizar letras maiúsculas para todas as siglas, existe uma regrinha, pouco conhecida, que regula o assunto:
          a) siglas formadas exclusivamente por consoantes (como CNPJ, CPF, RG, CBF etc.) devem ser grafadas totalmente com caracteres maiúsculos;
          b) aquelas que contêm vogais e, portanto, são pronunciadas como se fossem uma palavra devem apresentar apenas a primeira letra maiúscula, por exemplo: Crea, Sesc, Eletropaulo, Sudene, Fundep, Funabem, Bradesco, Banespa, entre outras.
          Como toda regra tem exceção (exceto a que diz que "não há regra sem exceção"), use maiúsculas para as siglas com vogais que contenham até 3 caracteres: ONU, ITA, USP etc.
          Qual é o erro da frase: "Pensou não necessitasse de preservativo?"
          O erro é moral, não gramático, uma vez que não há corretor que possa remediar as conseqüências de se praticar sexo inseguro.
          A omissão do "que" na frase acima não é erro, mas um recurso que pode ser utilizado para melhorar a redação.    
          Chama-se "Elisão do Que" e pode ser utilizado com os verbos mandar, requerer, pedir, pensar, parecer.      Por exemplo:  "mandou requeresse os documentos", "requereu se validassem seu diploma", "pedi concluísse os comentários", "pensou necessitasse do regulamento" etc.

          Esse recurso é muito útil na linguagem culta, em períodos longos, para se evitar queísmo (repetição desnecessária do "que").
          Ao ver a derrota da seleção na copa do mundo, o que diria o torcedor brasileiro:
          "Este foi o pior jogo a que assisti!" ou "Esse foi o pior jogo a que assisti!"?

          Apesar de amplamente confundidos nas linguagens oral e escrita, os pronomes "este" e "esse" têm usos distintos. O caso acima é apenas um desses exemplos.
          "Esse" introduz coisas sobre as quais já falamos e, portanto, é de conhecimento de nossos interlocutores.   
          Assim, depois da vexatória derrota, ao dar um gole amargo no copo, diríamos:
          -"Esse jogo foi péssimo!" 

          Por outro lado, antes do apito final, o correto seria falar:
          -"Este jogo foi péssimo!” - pois falávamos de algo que ainda estava em curso.
          A mesma situação se aplica, por exemplo, com dias da semana: "esta segunda-feira" significa a que está por vir, a próxima; "essa segunda-feira" quer dizer o último dia em que você pensou duas vezes antes de sair da cama.         
          Existem diversas outras regras que regem a utilização de "este" e "esse", e essas merecem a nossa atenção. Não custa consultar uma boa gramática.

          Este é um sábio conselho sábio!
          A frase "Comprei o disco do compositor de cujas músicas você sempre fala" está correta?
          Todos sabemos que "cujo" é um pronome relativo utilizado em orações subordinadas para retomar um termo da oração anterior.   
          Na frase acima, tal pronome foi usado para combinar as orações "Comprei um disco." e "Era do compositor das músicas que você sempre fala."
          Contudo, um erro comum é esquecer-se de que, quando o verbo da oração secundária exige uma preposição, esta não pode simplesmente ser deixada para trás.  Ela deve acompanhar o pronome relativo.
          Observe que "falar", no contexto acima, pede uma preposição (você sempre fala [das músicas].)  Assim, ao combinar as orações, se você disser simplesmente "cujas músicas" estará engolindo a preposição "de" e os deuses da boa gramática certamente não lhe pouparão a azia.  Diga "de cujas músicas".
          Esse não seria o caso se o verbo da oração secundária fosse outro, por exemplo, "feder".    Na frase "Comprei o disco com o vendedor cuja roupa fedia",  não existe a preposição "de" porque "feder", nesse caso, é intransitivo (não pede complemento).
          Outra coisa importante, é sempre concordar o pronome relativo com o número e gênero do substantivo que vem a seguir:
          "Comprei o disco do compositor de cujo concerto você sempre fala" -- substantivo: concerto, gênero: masculino, número: singular ---> use: de cujo;
          "Comprei o disco do compositor de cuja obra você sempre fala" -- substantivo: obra, gênero: feminino, número: singular ---> use: "de cuja";
          "Comprei o disco do compositor de cujos poemas você sempre fala" -- substantivo: poemas, gênero: masculino, número: plural ---> use: "de cujos";
          "Comprei o disco do compositor cujos poemas você sempre compra" -- substantivo: poemas, gênero: masculino, número: plural ---> use: "cujos" (sem "de"; o verbo "comprar" nesse contexto não pede preposição porque é transitivo direto).
          Importante: Nunca coloque uma preposição ou artigo entre "cujo' e o substantivo subseqüente. Diga "a mulher cujo perfume me atraía" e não "a mulher cujo o perfume me atraía". 
          REGRA MAIS IMPORTANTE DE TODAS: se a mulher em questão estiver acompanhada, é melhor não dizer nada se não você pode ter de engolir o "dito-cujo" .
          Quando o filho chega enlameado em casa, o que deveria gritar a mãe afoita: "Onde você foi, menino!" ou "Aonde você foi, menino!"
          Essa é fácil, mas é sempre bom relembrar. Em termos coloquiais, "aonde" é o advérbio "onde" de patins
          Onde (em que lugar) ===> permanência.
          Aonde (a que lugar) ===> movimento.
          Portanto, com verbos estáticos, diga "onde" ("não sei onde estava sua cabeça..."; "você arrumou esta mancha de batom onde?")
          Para verbos que indicam movimento, use "aonde" ("Lá vou! Não sei se saberei aonde...";         "Aonde você escorregou?"; "Viajarei aonde me enviares?"; "Você subiu com essa minissaia aonde, numa escada?")
          Qual é o certo: "Era tudo flores" ou "Eram tudo flores"?
          A gramática define este caso com um nome tão feio que recuso-me a mencionar. Não! não vale apena, não insita, jamais macularei meus lábios! Bom, já que você tem tendências masoquistas, vá lá: tipos sintáticos divergentes.

          O xingamento acima significa o quê? Basicamente, que determinadas construções admitem variações quanto à concordância ("choveu água e granizo" ou "choveram água e granizo"), quanto à regência ("nunca mais beberei esta cerveja" ou "nunca mais beberei desta cerveja") e quanto à colocação ("essa é divina Maddona minha amada" ou "essa é minha divina Maddona amada").
           Essas variações podem ser usadas livremente. O bom senso dirá qual a melhor forma a ser adotada; normalmente, a que soa melhor aos ouvidos (quando não se há problemas com o fornecimento de cotonotes).
          Afinal de contas, qual é o uso correto da vírgula?
          Facilmente reconhecemos diversos casos em que devemos ou não utilizar a vírgula. Por exemplo, separar o sujeito do verbo ou o verbo do seu complemento é um crime que deveria ser punido com 120 chibatadas, exceto no caso dos apostos (comentários sobre os termos da oração inseridos livremente no texto, normalmente, entre vírgulas).
          Existem várias regras de pontuação e um bom livro de gramática é mais apropriado para abordá-las. Contudo, como toque, há uma definição muito útil: toda vez que determinado membro da oração tiver o mesmo valor sintático que o anterior, use a vírgula.

          O Prof. Napoleão Mendes de Almeida explica: "Emprega-se a vírgula entre palavras, membros e orações de idêntica função". Por exemplo, entre vários sujeitos ("Bethoven, Mozart, Bach são os uivantes cachorros do meu vizinho."), entre vários objetos ("Pedi-lhe que deitasse, que esquecesse, que se entregasse."), entre várias orações de mesma função ("Escutou, olhou, sorriu, fugiu."), e assim por diante.
          Existe um "causo" muito antigo, com diversas versões, que ilustra a importância desta matéria. Dizem que, há muito tempo, um rebelde que escrevia um protesto em um dos muros do reino percebeu que a guarda real estava às suas costas enquanto acabava a frase: "Matar o rei não é crime!" Astutamente, sem se virar, acrescentou uma vírgula e salvou seu pescoço. A frase ficou: "Matar o rei não, é crime!"
          Portanto, uma única vírgula pode fazer uma diferença imensa. O ponto é: estude a vírgula!
          "Através desta, quero agradecer seu convite" ou "Por meio desta, quero agradecer seu convite"?
          Em termos gramaticais, "através" significa "de um lado para o outro". Alguns gramáticos fundamentalistas zurram de um lado para o outro cada vez que ouvem alguém usar "através" no sentido de "por meio de" (por exemplo, "Conquistei a todos através do meu papo irresistível").
          Muitos se esquecem de que a língua é viva e, portanto, neologismos, estrangeirismos e outros "ismos" mais a afetarão sempre. E mesmo que a mudança provenha de um déficit cultural, com o tempo, o uso a torna válida. Se esse processo não ocorresse, ao falar com uma garota hoje, você diria "Vossa Mercê é bela" em vez de "Você é bela" ("Vossa Mercê" ==> "vossemecê" ==> "vosmecê" ==> "você"). Além disso, entenderíamos qualquer missa rezada em latim, uma vez que a incapacidade de aplicar os diversos casos e declinações latinos com competência foi um dos fatores para que cada região outrora dominada pelo império romano desenvolvesse seu próprio dialeto (dando origem aos idiomas latinos modernos.)
          Como "regra de polegar" (tradução estúpida do inglês "rule of thumb"), ao escrever textos em que a gramática culta é exigida, use sempre "através" no sentido de "transversalmente, de lado a lado" e não como "por meio de" (afinal de contas, não sabemos a cartilha adotada pelo receptor da mensagem). Nos demais casos, não seja muito exigente consigo mesmo, nem com  seu interlocutor.
          Tem certeza de que está ao par do que acontece em Brasília?
          Sinto-lhe informar que nesse aspecto específico, você não está "a par" e muito menos "ao par"!
          Embora a confusão seja comum, "ao par" significa equivalência entre valores cambiais ou financeiros. Por exemplo: o real está ao par do euro (sonhar não custa nada...)
          Estar "a par" é aquilo que pai de moça donzela nunca está (inteirado do que está acontecendo).
          Então, para memorizar: "apesar de ostentar o par de cornos com galhardia, não estava a par dos pulinhos da patroa!"
          "Meu erro foi chegar no trabalho atrasado!"
          Meu caro amigo desempregado, temo informar que você cometeu dois erros:
          - primeiro, não usou aquela desculpinha básica do pneu furado (nem esfregou as mãos nos pneus para tornar a história crível);

          - segundo, e mais grave, usou a preposição errada.
          Chegar é verbo de movimento e, a exemplo do verbo ir, exige a preposição "a", nesse caso.  Assim como ninguém reside "à rua tal", mas "na rua tal", ninguém chega ou vai "em algum lugar", mas "a algum lugar".
          Não esqueça: 
          - residir, morar ==> em algum lugar;

          - chegar, ir ==> a algum lugar.
          Portanto, na próxima vez, não tem problema se chegar atrasado ao trabalho, desde que tenha em mente uma desculpa fantástica (melhor não usar a do pneu... vai que seu chefe também leia esta coluna!)
          Ao chegar ao balcão daquela papelaria cheia de badulaques batendo na sua cabeça, você pede uma xérox ou uma xerox?
          Essa questão evidentemente não incomoda "nórdestinos"!
          A marca comercial é Xerox (oxítona, "cherócs") e, a exemplo de Durex, quando a novidade     foi lançada no Brasil, a marca acabou associada ao produto. Inclusive, isso prega algumas peças aos brasileiros em portugal. Os brasucas levam um susto danado ao descobrirem que "não é possível tirar a cueca da cachopa sem mostrar-lhe primeiro o durex (camisinha, em Portugal)".
          Muitos discutem e se digladiam a esse respeito. Há aqueles que defendem xérox alegando que todos os dissílabos portugueses terminados em x são paroxítonos (por exemplo, cóccix, índex, ônix, entre outros).
          Como não sou gramático e nem tenho intenção de sê-lo. Recorro à sabedoria do meu saudoso pai, que na sua simplicidade de quem cursou apenas 3 anos de escola, mas conquistou o PHD da vida, ao me alfabetizar, determinou:
          - "Na dúvida, troque por uma certeza!"

          Assim, deixo a vocês decidirem se farão uma xérox ou uma xerox. Eu prefiro fazer uma fotocópia, um neologismo muito bem construído com termos comuns de nosso idioma e que não carrega em si o merchandize de uma marca comercial.
Nota: Os toques acima não têm a pretensão de abranger todo o âmbito gramatical dos temas propostos. Aliás, a idéia é passar algumas dicas práticas. Procuramos abordar os temas com humor, para tornar a leitura o menos maçante possível. Se, por ventura, perceber alguma falha por falta de exatidão ou de completitude, seremos imensamente gratos se formos notificados a respeito. Use o botão Contato e envie-nos a sua dúvida, crítica ou sugestão. A sua colaboração é imprescindível!